Cognições em Foco – Flexibilidade cognitiva: Os extremismos que afetam posicionamentos políticos e éticos

Amliz Lopes escreve sobre psicologia e comportamento social toda última quinta feira do mês, as 18h

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Foto: Divulgação

Flexibilidade cognitiva, em termos de neuropsicologia, trata-se de uma função mental envolvida em nossa capacidade criativa de ampliar o modo de enxergar uma situação, ou seja, maior capacidade de resolução de problemas ou maior diversidade de soluções práticas.

Logo, o que temos são pessoas que tem essa capacidade mais desenvolvida e outras que apresentam maior rigidez cognitiva (maior dificuldade em mudar de opinião, mudar estratégias).

Como isso funciona na prática? Bem, vamos falar da neuroplasticidade cerebral a qual refere-se ao estabelecimento de novas conexões neuronais, conforme estimulamos nosso cérebro a novas circunstâncias (experiências, estudos, conteúdos diversos) maior a probabilidade de consolidarmos uma aprendizagem e então estamos diante de uma atividade de neuroplasticidade a qual foi exercitada com atividades possibilitadas pela flexibilidade cognitiva no cérebro, permitindo ao cérebro um pensar diferente, uma abertura a coisas novas e criação de um novo hábito/prática.

Pessoas que tem maior rigidez cognitiva são pessoas que apresentam maior dificuldade em lidar com mudanças, pois estão presas ao que popularmente se chama de zona de conforto, que seria a um padrão previsível de enxergar as coisas.

Valendo ponderar sobre percepções de Aaron Beck, precursor da Teoria da Terapia Cognitiva, o qual pontuava que as coisas não são como vemos e sim da forma como interpretamos o mundo isso reforça que pessoas com maior rigidez cognitiva podem se aprisionar em seus modos de perceber o mundo (denominadas por Beck como distorções cognitivas). Para que possibilitemos a mudança há ainda a capacidade de identificar a ineficácia dos seus comportamentos e substituir para outros mais eficazes.

Diante do novo ou de opiniões divergentes essas pessoas podem se mostrar mais ansiosas ou agressivas, haja vista um repertório restrito de resolução de problemas. Ouso citar Caetano Veloso quando versa sobre o sua mudança da Bahia para São Paulo “Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto/ Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto/ É que Narciso acha feio o que não é espelho/ E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho”.

Atualmente nos encontramos em uma situação nacional de extremismos e argumentos baseados em argumentos frágeis (matérias incompletas ou sensacionalistas) e em fake News. Ainda embasados por capacidade de interpretação comprometida ou leitura superficial do tema.

Um estudo desenvolvido por Zmigrod, P. Rentfrow e T. Robbins (2019) aponta que indivíduos com posicionamento ideológicos marcantes e delimitados apresentavam maior rigidez cognitiva, o que nos permite a interpretação de uma restrição do pensar a modos específicos da ideologia política ao que seguem, não flexibilizando a outros saberes, negando oportunidades de aprendizagens diversas. Em contra partida encontramos pessoas menos indecisas e mais seguras de si (isso não quer dizer que o oposto seja a solução, antes sim, abre precedente para outras reflexões), o radicalismo propõem resultados diretivos e básicos, não exigindo tanto pensar e ponderar, apenas obedecer e seguir aquilo que se crer.

Não obstante, encontramos ainda uma situação de desrespeito ao outro (falta de empatia – capacidade se se colocar no lugar do outro),em um estado de alheamento envolto de rigidez cognitiva em que o indivíduo não se permite pensar diferente e se apega ao que acha, se privando de ouvir o outro, adquirir novos aprendizagens e fazer novas conexões neurais, estando restrito a achismos de argumentos frágeis havendo maior tendência a comportamentos impulsivos (agressões verbais ou físicas), pois não há argumento para sustentar a opinião expressa e o indivíduo se vê limitado a se apegar ao seu pensamento e não mudá-lo, logo recorre a estratégias primitivas de resolução de conflito (comportamento emocional).

Tais aspectos conduzem a reflexão de como podemos lidar com mudanças de conflitos de forma mais saudável?  Será que estamos respondendo a pensamentos distintos aos nossos de forma rígida e intolerante?

Será que estamos prontos para dialogar sobre pontos de vista diferentes? As atitudes impulsivas de intolerância perante o diferente, ainda que esse se apresente absurdo, a nossa resposta precisa ser absurda?

Frente ao argumento em que queremos todos ficar bem, superar obstáculos, lidar com as dificuldades nos vemos lutando contra nós mesmos esbarrando nas nossas divergências o que expõe que o problema base não é o concreto, antes sim, nossa capacidade de dialogar, de refletir e de respeitar o diferente.

A raiva tem uma função no nosso organismo, não restrita a agressão, mas a ação para nós fazer mudar. Como você vem usando suas funções mentais? Como você está aproveitando o seu cérebro em prol do seu bem e do bem de todos?

AMLIZ FERREIRA LOPES é psicóloga pela Universidade de Pernambuco, atuando na área clínica sob o registro CRP 02/18257. É especialista em Neuropsicologia pelo Instituto de Neuropsicologia Aplicada, com título reconhecido pelo Conselho Federal de Psicologia. Atualmente, é Pós Graduanda em Psicoterapia Cognitiva Comportamental, pelo Grupo Cognitivo. Possui experiência na área de psicoterapia, avaliação neuropsicológica e na área social. Co-fundadora do grupo de estudos PsicoEduca.

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